Reaprender a respirar pode melhorar o bem-estar e 'limpar' o corpo e a mente

Médicos e especialistas ensinam a usar a respiração como ferramenta para a saúde
1 ago

Reaprender a respirar pode melhorar o bem-estar e ‘limpar’ o corpo e a mente

Médicos e especialistas ensinam a usar a respiração como ferramenta para a saúde.

Inspira. Expira. Inspira. Expira. São tantas as repetições, desde sempre, que nem notamos mais a entrada e a saída do ar. Mas nesse processo tão automático e essencial para a vida está uma das chaves para melhorar nosso bem-estar. Aprender a respirar é quase tão importante quanto ter uma boa alimentação e fazer exercícios regulares.

A nossa respiração é comandada pelo sistema nervoso autônomo, o mesmo que controla a pressão arterial, a temperatura corporal, a digestão, o metabolismo. E melhorar a qualidade da respiração pode ter um impacto positivo nessas outras funções. Mas o que é respirar bem? Não nascemos todos, afinal, sabendo respirar? Segundo diferentes especialistas, entre médicos e terapeutas, uma boa respiração é longa, com inspirações e expirações lentas. É preciso prestar atenção a cada movimento.

— Práticas como meditação e respiração lenta podem realmente melhorar a saúde das pessoas — explica o cardiologista Claudio Domênico. – Como afetam o sistema nervoso, estimulam um equilíbrio geral e podem resultar em queda de pressão arterial e da frequência cardíaca.

Lisiane Mutti, voluntária da Fundação Arte de Viver, criada há 37 anos, ministra aulas com técnicas de respiração que prometem limpar a mente e ajudar a alcançar um estado de plenitude.

— Tudo na natureza tem ritmo, desde as estações do ano até a maneira como vamos ao banheiro. Se sentimos raiva, ficamos ofegantes. Quando temos medo, prendemos a respiração. Apaixonados, suspiramos. Através dos ritmos de respiração podemos acessar nossas emoções negativas e tirá-las do nosso corpo — diz a terapeuta. Ela conta que conheceu as técnicas em 2001, após a morte do pai, e conseguiu, com a ajuda delas, vencer a depressão que enfrentava.

Nos dias atuais, em que o estresse e a ansiedade estão entre os principais problemas enfrentados pelas pessoas, é preciso parar. E respirar. Segundo Lisiane, não é uma questão de aprender os movimentos corretos, e sim reaprender. Porque, quando nascemos, está tudo lá, em seu lugar.

— Um adulto só utiliza 35% de sua capacidade pulmonar. Já o neném respira com o corpo inteiro. A vida traz essa respiração errada, vamos perdendo essa capacidade. Através da respiração correta, conseguimos fazer uma limpeza profunda no corpo e na mente.

Os benefícios aparecem, de acordo com a instrutora, em áreas mais variadas:

Para quem não pode se dispor a fazer o curso com três dias de duração, que custa R$ 360, a terapeuta ensina algumas técnicas.

— A primeira coisa que alguém deve fazer quando se está ansioso, por exemplo, é fechar os olhos e prestar atenção na respiração. È preciso parar, tomar as rédeas daquela situação, saber que você não é aquilo. E então fazer uma respiração profunda, mais longa, com dez ou 15 inspirações e expirações, trazendo sua mente para o presente, sentindo que lugar ou lugares do seu corpo essa atividade está atingindo. Quando você abre os olhos, já esta de outra forma — afirma.

— Fiz o curso praticamente virada, durante quase uma semana. Foi muito intensa a experiência da respiração em si, é tudo muito impressionante. Porque as sensações físicas experimentadas pelas pessoas são as mais diversas. Tem quem sinta frio, ou morra de rir, ou chore, ou ainda quem não sinta nada — conta.

Oito anos depois, ela garante que valeu a pena, mesmo sabendo que não conseguiu aplicar 100% do que aprendeu à sua rotina corrida:

— Após o curso, é preciso fazer exercícios diários em casa, por pelo menos 40 dias, até que essa técnica entre no automático. Esse ciclo eu não cumpri, mas algumas das técnicas eu trouxe para a vida. Antes de dormir, faço uma respiração que me acalma. Na hora de situações de estresse no trabalho, também tem uma técnica que aplico e que muda meu humor na hora. Só o fato de entender que consigo mexer com minhas emoções simplesmente respirando já me tira do ápice do nervosismo — afirma Janaína.
s técnicas variam de acordo com cada filosofia. Anand Soma, terapeuta corporal tântrica do Centro Metamorfose Botafogo, trabalha com um conceito chamado de Renascimento. Os movimentos mudam, mas o objetivo de influenciar nas emoções continua.

— No Renascimento utilizamos uma técnica específica de respiração que nos ajuda a dissolver medos, tristezas, angústias, além de aumentar nossa energia corporal, superar traumas e bloqueios emocionais, trazer determinação e força de vontade para as nossas tomadas de decisões, entre outros benefícios — explica Soma.

De acordo com a terapeuta, essa respiração errada começa já no parto, na maioria dos casos.

— Quando o bebê nasce, logo que acaba de sair da barriga fazem o corte do cordão umbilical. Sem nunca ter respirado, ele é obrigado a ter os pulmões funcionando 100%. Nos partos humanizados, essa situação começa a ser mudada. O bebê é entregue à mãe ainda com o cordão, que continua pulsando, e essa transição acaba sendo mais suave. Só quando ele faz a respiração completa é que o cordão é cortado.

Soma trabalha com a técnica de respiração circular, mas explica que há uma específica para cada tipo de problema, como ansiedade ou depressão. Numa delas, é utilizado um canal único, com inspirações e expirações apenas pela boca, ou então os dois movimentos utilizando apenas o nariz.

— A qualidade de vida muda radicalmente. A pessoa começa a viver de uma forma mais leve, por causa da liberação de hormônios como endorfina e serotonina. A autoconfiança aumenta, e ela passa a viver em seu máximo — afirma a terapeuta.

Ela conta uma experiência muito pessoal logo na primeira vez que entrou em contato com a técnica, como paciente.

— Era uma sessão em casal, com um namorado com quem eu queria terminar, mas não estava conseguindo, porque era meu amigo. Fiz a sessão às 15h e às 18h eu já tinha terminado o namoro. Ganhei coragem para enfrentar uma situação que eu não estava conseguindo encarar.

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Após clicar as terapeutas para esta reportagem, o fotógrafo do GLOBO Roberto Moreyra pôde experimentar o poder de uma das técnicas de respiração. Enquanto fotografava Soma, comentou que tinha problemas para dormir. Ela ensinou uma técnica respiratória específica para a questão.

— Fiz exatamente como ela me ensinou, uma respiração usando a garganta. Apaguei em seguida. Eu, que não dormia nem quatro horas por noite, agora estou experimentando oito horas de sono — disse Moreyra.

Essa mudança na qualidade de vida trazida por técnicas não tradicionais, alertam os médicos, vale apenas quando não existe uma condição clínica específica.

— Quem sente cansaço e dificuldade respiratória em grande escala, com desconforto, precisa antes de mais nada procurar um médico — afirma o pneumologista Ricardo Meirelles, que aponta o maior vilão quando o assunto é a respiração. — O tabagismo afeta e muito a respiração, mesmo para quem fuma e não acha que tem sintomas.

Dicas para respirar melhor

– Segundo os médicos, o ar deve entrar no corpo pelo nariz, e não pela boca. Assim, chegará até os pulmões com menos impurezas, já que as narinas funcionam como um filtro, e mais humidificado

– Ao respirar, devemos voltar nossa atenção a um músculo localizado entre o tórax e o abdômen, conhecido como diafragma. Essa respiração diafragmática, ou abdominal, garante uma melhor oxigenação dos tecidos no organismo

– Em situações de estresse ou ansiedade, é preciso parar, fechar os olhos e botar em prática a respiração alongada, ou lenta: encher os pulmões lentamente, segurar o ar o máximo possível e fazer a expiração mais lentamente ainda. Fazendo esse ciclo por alguns minutos, assim que abrir os olhos, ficará mais fácil encarar o problema em questão.

Texto: Luciana Barros

Fonte: oglobo.globo.com

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