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Tatuagem, liberdade estética e o controle do corpo

14 de agosto de 2017

@carlalemox

“Meu corpo, minhas regras”. Nunca antes as tatuagens estiveram tão conectadas com a nossa retomada pelo controle do próprio corpo.

Sempre achei que fazer uma tatuagem era uma vontade que surgia “do nada”. Desde a minha primeira tattoo, o desejo de estampar um desenho no corpo sempre apareceu de forma quase incontrolável. Mesmo que levasse vários meses do surgimento da ideia ao momento agulhinha arranhando na pele. A sensação era de que a vontade de tatuar era arrebatadora.

Quem tem tatuagem entende esse desejo “repentino”. Quem não tem, pode estar sentindo-o pela primeira vez, quem sabe. A verdade é que essa vontade de ter um desenho perpétuo sob a pele não tem nada de aleatória – e pode ter muito a ver com empoderamento e liberdade.

Logo quando eu descobri que estava grávida, percebi que estava sendo tomada pela vontade de me tatuar (pela décima vez). E não, não é recomendado que grávidas se tatuem e eu sabia disso. Por que então eu estava mais uma vez no Pinterest fazendo um board que só poderia ser revisitado depois de meses? Por que essa vontade loca de fazer outra tatuagem?

Primeiro pensei que era natural que eu quisesse marcar um momento tão especial da vida direto na minha pele. Foi então que lembrei do que ouvi Lena Dunham falando no Insta Stories dia desses. Ela, que recentemente passou por momentos super difíceis por causa de uma endometriose, contava que tinha feito diversos tatuagens em um espaço pequeno de tempo. A justificativa? Ela precisava sentir que podia retomar o controle sobre o próprio corpo.

preciso me sentir no controle, e agora?

Não demorou muito pra que eu percebesse que todas as minhas tatuagens tinham sido feitas em um momento em que eu precisava me sentir no controle sobre mim mesma. A primeira, aos 18 anos, veio na minha busca por uma liberdade frustrada. As seguintes sempre em um momento de baixa autoestima sem muita explicação, ou em meses que me senti perdida no relacionamento, ou quando questionei minha carreira e minhas próprias convicções.

Parei então para observar as mulheres à minha volta e ao meu alcance no mundo virtual. Nunca fomos tão tatuadas. Nunca nos tatuamos com tanta liberdade e vontade de expressar para o universo quem somos. Nunca nos tatuamos como agora: querendo ser nós mesmas e não um bibelô sexy para o imaginário masculino.
Tatuagem, liberdade estética e o controle do corpo

A equação é simples: se quem estabelece as regras sobre nosso corpo somos nós mesmas, nada mais natural que procuremos por símbolos que expressem esse controle sobre ele. Numa sociedade que insiste em dizer que nós mulheres não deveríamos ter qualquer jurisdição sobre o próprio corpo, escolher como, quando, onde e de que forma vamos adorná-lo (de forma permanente) é extremamente libertador.
a tatuagem feminina e a liberdade estética

Mais do que escolher um desenho bonito, tatuar-se é dizer ao mundo: “esse corpo me pertence e posso fazer dele o que eu quiser”. É na crina da 3a onda feminista que estamos promovendo essa ressignificação. Uma reanálise de símbolos femininos, inclusive e principalmente aqueles ligados diretamente ao nosso corpo.
Tatuagem, liberdade estética e o controle do corpo

Não é mais aceitável que nos digam o que devemos ser para sermos aceitas como mulheres adequadas. Não é de se estranhar que, nesse contexto, a tatuagem se torne um símbolo cultural de liberdade estética.

Estamos retomando signos da opressão masculina e os transformando em símbolos da resistência feminina. Assim, a tatuagem se torna o “lembrete” pessoal da nossa própria força.
Tatuagem, liberdade estética e o controle do corpo

Fazer uma tatuagem é como se declarar ao próprio corpo. É dizer a ele que ali não é mais um campo de batalha entre defeitos e frustrações. É um compromisso de se cuidar, se enfeitar e se amar o quanto puder.

Não importa o que digam, a dona daquele corpo ali é você e ninguém mais.

Texto: Nina Ribeiro

Fonte: Modices

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